Entre nós e as Palavras

Blogue da Semana da Poesia da Escola Secundária Leal da Câmara

Friday, April 15, 2005

De Joam Roiz de Castel-Branco, contador da Guarda, a António Pacheco, veador da moeda de Lisboa, em resposta dúa carta que lhe mandou, em que motejava

Já me nam dá de comer
senam minha fazendinha;
rei nem roque nem rainha
nam queria nunca ver.

O pagar das moradia
sé o que mais contenta,
o despachar da ementa,
as madrugadas tam frias;
trabalhar noites e dias
por ser na corte cabidos,
e, os tempos despendidos,
ficar com as mãos vazias.

Armadas idas d'além
já sabeis como se fazem:
quantos cativos lá jazem,
quantos lá vão que nam vêm!
E quantos esse mar tem
somidos que não parecem,
e quam cedo cá esquecem,
sem lembrarem a ninguém!

E alguns que sam tornados,
livres destas borriscadas,
se os is ver às pousadas,
achai-los esfarrapados,
pobres e necessitados
por mui diversas maneiras
por casas das regateiras
os vestidos apenhados.

Por isto, senhor Mafoma,
tresmontei cá nesta Beira,
por tomar a derradeira
vida, que todo o homem toma;
porque há lá tanta soma
de males e de paixam
que, por não ser cortesão,
fugirei daqui té Roma.

Fim

Agora julgai vós lá
se fiz mal nisto que faço:
em me tirar desse Paço
e mudar-me para cá;
pois é certo que, se dá
algum pouco galardam,
lança mais em perdiçam
do que nunca ganhará.

João Roiz de Castel-Branco, Cancioneiro Geral, III, 120-124

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