Entre nós e as Palavras

Blogue da Semana da Poesia da Escola Secundária Leal da Câmara

Wednesday, April 20, 2005

Moto: Para ti que morreste em mim…

Se o amor fosse um pássaro
não teríamos asas.
Se o amor fosse o céu
não seríamos azuis.
Se o amor fosse luz
estaríamos perdidos na escuridão
sem ninguém para abraçar.

Se o amor fosse fogo
perderíamos a chama.
Oh amor que estás tão frio!
Se fosse um coro
tu e eu nunca poderíamos cantar
Se o amor fosse teatro
nunca conseguiríamos representar os nossos papéis.

Se fosse um desporto
não estaríamos na mesma equipa,
pois estamos destinados a perder.
Se o amor fosse um oceano
então seríamos apenas uma corrente,
um regato…

Se o amor fosse a bíblia
iríamos ficar perdidos no pecado,
porque não está nos nossos corações.
Se fosse eterno
não seríamos perenes…

O amor evaporou-se somente
como uma melodia quando chega ao fim
como um barco quando se afunda
como uma lágrima quando seca
como uma alma cansada
como tu e eu…
como eu e tu…

Filipa Farrolas

Nós… Os poetas…

E nós
Os poetas...
Que comemos do mesmo mundo
E vemos o mesmo céu.

E vencemos
E perdemos
Sabemos sempre que alguém irá escrever
Algo para nós
Por nós
Ou simplesmente...
Nada.

Nós...
Por sermos tão iguais e diferentes
Sabemos que o somos...
Sabemos que a poesia nos corre nos lábios
E deixamos que os dedos cansados
A imaginem no papel.
Nós...
Os poetas...

Daniela Vilela

Monday, April 18, 2005

Sentimentos, o que são?

Sentimentos, o que são?
Sentimentos é uma dor no peito,
Ou um brilho no olhar.
É algo inexplicável, inapálpavel.

Sentimentos é o que sinto?
Então é um frio na barriga,
É um nervoso miudinho,
É um sorriso alegre,
É um coração partido…

Sentimentos é a alma?
É uma alma amarga,
Ou uma alma alegre?
É um pôr-do-sol no mar,
É uma lua cheia na noite.

Sentimentos é tudo aquilo
Que não se vê, faz sentido!
Sentimentos é abstracto?
Exacto!
Então, sentimentos é vida!

Ângela Machado

Poesia de Torga que descreve o seu nascimento

Romance

Ora pois: foi tal como vos digo:
minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:
- ou Ela, ou eu!
E ficou resolvido que no dia doze
minha Mãe parisse,
e pariu!

Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
Como se fosse um feito glorioso
parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
Por mim,
ainda disse que não!
Mas o seu Anjo da Guarda
era forte e tenebroso...
E aquele frágil cordão
deixou de ser o meu Pão,
o meu Vinho
e a paz eterna do meu coração
mesquinho!...

Deixou de ser o silêncio
delicado e agradecido
dos meus instintos menores...
Deixou de ser o Norte daquele lago
onde boiava o meu corpo
sem alegria e sem dores...

Deixou de ser aquela verdadeira
e sagrada ignorância do meu nome,
que Satanaz me disse, quando disse:
- Respira e come,
respira e come,
Animal!
(A voz de Satanaz já nesse tempo
era humana e natural...)

Deixou de ser um mundo e foi um outro!
Foi a inocência perdida
e a minha voz acordada...
Foi a fome, a peste e a guerra!
Foi a terra
sem mais nada!

Depois,
sem dó nem piedade a Vida começou...
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo,
e, ao ver que eu era homem,
corou...

O último poema escrito por Torga

Requiem por mim
Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Diário, volume XVI

Vamos brincar!

Sorris…
E a tua alma sorri contigo
Pois não vale de nada permaneceres triste
Pois a vida é tão bela e preciosa
Que tu….
Só queres é ser feliz!

Vive-la…
Com uma intensidade profunda
Mas que te toca ao de leve e te leva com ela
E te fascina com o seu turbilhão de emoções
Com a sua preciosa fusão de sensações
Que te envolve num manto colorido
Pois o que ela quer é brincar contigo

Mas simultaneamente quer que aprendas
Pois para brincar também há regras
E tu esforças-te em aprendê-las
Para que mais tarde possas dizer.
“Eu sei jogar, posso-te ensinar!”


Sweetgirl

Sunday, April 17, 2005

Porquê?

Porquê não encontramos
O porquê das coisas
Quando mais procuramos?
Porquê procurarmos
O porquê das coisas mais difíceis
E não encontramos?
Porquê o porquê das coisas fáceis
Não tem um porquê explicável?
Porquê o porquê
Das coisas fáceis
Não tem um porquê explicável?
Porquê, o porquê é um segredo
Que me escapa entre os dedos
Quando o tenho na mão?
Porquê, o porquê é um sonho
Um passado medonho
Uma ínfima ilusão?
Porquê quando pergunto o porquê!
Ninguém sabe responder?
(ou então querem esconder
um porquê indesejável)
Porquê o porquê questionado
Nunca é revelado quando pergunto:
- Afinal o que é o porquê?
Então, levam aos lábios o dedo
E respondem baixinho como se a medo:
- Ahhh... o porquê é um segredo.

Daniela

O is it not with me as with that Muse
Stirred by a painted beauty to his verse,
Who heaven itself for ornament doth use
And every fair with his fair doth rehearse;

Making a couplement of proud compare
With sun and moon, with earth and sea's rich gems,
With April's first-born flowers, and all things rare
That heaven's airs in this huge rondure hems.

O let me, true in love, but truly write,
And then believe me, my love is as fair
As any mother's child, though not so bright

As those gold candles fixed in heaven's air:
Let them say more that like of hearsay well;
I will not praise that purpose not to sell.

William Shakespeare

Friday, April 15, 2005

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões

Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv'en [o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486

De Joam Roiz de Castel-Branco, contador da Guarda, a António Pacheco, veador da moeda de Lisboa, em resposta dúa carta que lhe mandou, em que motejava

Já me nam dá de comer
senam minha fazendinha;
rei nem roque nem rainha
nam queria nunca ver.

O pagar das moradia
sé o que mais contenta,
o despachar da ementa,
as madrugadas tam frias;
trabalhar noites e dias
por ser na corte cabidos,
e, os tempos despendidos,
ficar com as mãos vazias.

Armadas idas d'além
já sabeis como se fazem:
quantos cativos lá jazem,
quantos lá vão que nam vêm!
E quantos esse mar tem
somidos que não parecem,
e quam cedo cá esquecem,
sem lembrarem a ninguém!

E alguns que sam tornados,
livres destas borriscadas,
se os is ver às pousadas,
achai-los esfarrapados,
pobres e necessitados
por mui diversas maneiras
por casas das regateiras
os vestidos apenhados.

Por isto, senhor Mafoma,
tresmontei cá nesta Beira,
por tomar a derradeira
vida, que todo o homem toma;
porque há lá tanta soma
de males e de paixam
que, por não ser cortesão,
fugirei daqui té Roma.

Fim

Agora julgai vós lá
se fiz mal nisto que faço:
em me tirar desse Paço
e mudar-me para cá;
pois é certo que, se dá
algum pouco galardam,
lança mais em perdiçam
do que nunca ganhará.

João Roiz de Castel-Branco, Cancioneiro Geral, III, 120-124

O Captain, my Captain

O Captain! my Captain, our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
The arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

Walt Whitman, North American, 1818-1892

Thursday, April 14, 2005

Poesia

Poesia foi
Poesia é
Poesia sempre será
Arte dos seres
que contemplam
que vivem, que sonham.
Um verdadeiro Poeta
Brilha, resplandece pedaços de Sol
estilhaça humores
palpita corações
desvenda tesouros
que ninguém quer ver
que todos ignoram
fingem não ser.
Poesia é de todos
os que querem entender
é dos que não fingem não ver
é de quem não se recusa a ser.
Carina Martinez

A Paz sem Vencedor e Sem Vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos o vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andersen

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro